Lenilson

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ūüáßūüá∑ Era √≥bvio que isso tudo ia acontecer

03 May, 2020

Introdução

Pouco mais de um ano atr√°s, eu deixei fisicamente o Brasil.

Minha saída física do Brasil foi apenas mais um dos passos que decidi tomar em direção a autonomia.

Aquele momento ainda √© muito vivido na minha cabe√ßa: ir ao aeroporto em Recife, despedir-se da minha m√£e e do meu pai. Sem passagem de volta, e a √ļnica nacionalidade que possuo sendo a Brasileira, embarquei rumo a S√£o Paulo, e em seguida rumo a Madri. Sem inten√ß√£o de voltar.

Ao contrário do que parece, eu não estava "imigrando" para nenhum lugar específico. Não estava indo "tentar a sorte" no primeiro mundo. Eu estava apenas emigrando do Brasil.

Se meu plano desse qualquer resultado, meus futuros retornos ao Brasil seriam sempre em caráter temporário, para visitar família e amigos e conhecer mais lugares dentro do meu próprio país.

Na verdade, essa história começa de verdade quatro anos antes do momento descrito, com as ideias apresentadas neste post se formando pouco a pouco. Eu estava convencido que era loucura confiar boa parte da minha sorte nos mesmos burocratas.

Essa simples realiza√ß√£o, que n√£o veio de uma vez e foi agravada pelo derretimento do Real, um cisne negro, teve peso profundo nas decis√Ķes que tomei.

Esta realiza√ß√£o tamb√©m foi o que me levou a mudar minha fonte de renda para D√≥lares Americanos, n√£o deixar mais nem um centavo em Real Brasileiro, fazer o poss√≠vel para investir contra o "zeitgeist" corrente dos analistas financeiros de sof√°, e em √ļltima an√°lise, a sair fisicamente do pa√≠s, sem inten√ß√£o de colocar todos os meus ovos (leia-se: depend√™ncia financeira, fiscal e f√≠sica) no mesmo lugar, nunca mais.

At√© hoje, uma boa parte da minha energia mental √© focada "nerdar" sobre as melhores jurisdi√ß√Ķes para se ter resid√™ncia fiscal, contas em banco (ou cloud), fontes de renda, posses, investimentos e reservas de valor.

Este artigo não tem a intenção explícita de te convencer a sair fisicamente do Brasil, coisa que por diversos motivos é inviável para muitos, mas sim de mostrar o tamanho da bolha que nosso país é, os riscos que você não pode ver, e porquê você deveria se importar com tudo isso.

Ah, e por favor, ao ler a palavra "Brasil" aqui, n√£o leve para o lado pessoal. Acredite se quiser, este artigo n√£o foi escrito por uma pessoa com a chamada "s√≠ndrome do vira-lata". O uso do contexto Brasileiro aqui √© meramente fruto de ser onde nasci e cresci, mas qualquer an√°lise feita poderia ser igualmente v√°lida para Argentina, Venezuela, Indon√©sia, √Āfrica do Sul, L√≠bano, Turquia, at√© mesmo os Estados Unidos, entre outros.

Caudas gordas e cisnes negros

Essa se√ß√£o √© uma tentativa breve de fazer um resumo dos conceitos encontrados na cole√ß√£o Incerto do Nassim Nicholas Taleb, necess√°rios para explicar a ideia central desse texto. Veja o final deste artigo para recomenda√ß√Ķes de livros.

Ao se pensar em investimentos, talvez a primeira coisa que venha em nossa cabe√ßa seja risco. "Qual seu perfil de risco?", perguntaria um consultor financeiro disposto a te aconselhar em onde por seu dinheiro, provavelmente te indicando "tesouro direto" se voc√™ quer "baixo risco" e a√ß√Ķes se voc√™ quer "alto risco."

Quando pensamos em risco, geralmente pensamos somente em coisas que conseguimos ver: voc√™ contrata seguro para seu ve√≠culo pois h√° o risco de se envolver um acidente de tr√Ęnsito ou de ter seu carro furtado. Voc√™ paga um plano de sa√ļde pois h√° o risco de um dia voc√™ precisar de um tratamento caro ou de um procedimento de emerg√™ncia, e n√£o quer depender do sistema p√ļblico. Voc√™ diversifica seu portf√≥lio de investimentos para que caso um dos elementos que o comp√Ķem perca valor, voc√™ n√£o sofra tanto.

Tudo isso pode ser destilado em frases comuns no cotidiano: "seguro morreu de velho" ou "n√£o ponha todos os seus ovos na mesma cesta". Somos ensinados que devemos balancear risco e retorno em tudo que fazemos na vida.

Ao que parece, nenhum desses insights se traduz para outro tipo de risco: aquele que n√£o podemos ver. Ou, risco de cauda.

N√≥s n√£o confiamos no mercado de a√ß√Ķes o suficiente para colocar todo nosso dinheiro nele, mas ainda sim, sem saber, confiamos todos os dias nos pol√≠ticos Brasileiros ao deixar todo nosso patrim√īnio em Real.

Tratamos risco em nossas vidas como algo mec√Ęnico, quando na verdade boa parte do risco que nos cerca tem propriedades de cauda gorda: h√° muito mais coisa que voc√™ n√£o sabe que voc√™ n√£o sabe do que coisas que voc√™ sabe que voc√™ n√£o sabe, que por sua vez s√£o geralmente mais do que as coisas que voc√™ realmente sabe sobre uma determinada situa√ß√£o. Mesmo assim, tomamos decis√Ķes ignorando tudo aquilo que n√£o sabemos que n√£o sabemos (ou pior, aquilo que sabemos que n√£o sabemos).

De forma simples, cisnes negros s√£o apenas eventos inesperados, mas que trazem consigo impactos profundos. Estes eventos, dada sua imprevisibilidade, s√£o geralmente oriundos desse "risco de cauda."

Para citar alguns exemplos gerais, dentro do contexto Brasileiro:

  • A opera√ß√£o lava jato e suas ramifica√ß√Ķes √© um cisne negro
  • O impeachment da Dilma foi um cisne negro
  • O derretimento do Real √© um cisne negro
  • A pandemia do novo coronav√≠rus √© um cisne negro¬Ļ
  • A elei√ß√£o do Bolsonaro foi um cisne negro

Cisne negros, pela sua natureza referencial, também acontecem em sua vida pessoal: conseguir um novo emprego que paga o triplo do seu salário é um cisne negro², dar perda total no seu carro em uma manhã comum de terça feira é um cisne negro, entre outros exemplos possíveis.

A cauda do Brasil é mais gorda do que você imagina

Falar de risco de cauda e cisnes negros dentro da realidade atual pol√≠tica e econ√īmica do Brasil chega a ser uma brincadeira de mal gosto: a bomba j√° explodiu, o cisne j√° aconteceu, certo? N√£o √© necess√°rio ser um especialista para chegar a conclus√£o de que a situa√ß√£o atual √© s√©ria. Muito mais s√©ria do que qualquer um poderia prever em 2014, por exemplo.

Ainda assim, tendemos a descontar o efeito destes eventos e aplicar um viés retrospectivo: era óbvio que isso tudo ia acontecer!

Em meados 2014, com a copa a todo vapor e elei√ß√Ķes em seguida, era dif√≠cil conceber que a candidata a ser reeleita seria, em pouco mais de dois anos, impichada. Seria tamb√©m loucura afirmar que um deputado populista de pouca relev√Ęncia nacional seria eleito presidente em seguida. At√© para os eleitores de tal pol√≠tico, seria imposs√≠vel conceber que o mesmo seria obrigado a lidar com uma pandemia, outro cisne negro, com as consequ√™ncias disso se desenrolando enquanto este texto √© escrito.

O Brasil est√° lotado de risco de cauda! Adoramos nos comparar e tirar li√ß√Ķes de pa√≠ses de primeiro mundo como E.U.A. e estados Europeus, mas esquecemos que, at√© onde a hist√≥ria alcan√ßa, nossa estabilidade pol√≠tica e econ√īmica tem mais em comum com Turquia, Argentina, M√©xico e L√≠bano. E tudo bem!

N√£o h√° problema nenhum em investir em nenhum desses pa√≠ses, inclusive o Brasil. Na verdade, se voc√™ procura crescimento astron√īmico e volatilidade, lugares inst√°veis s√£o os melhores para investir. Desde que, claro, voc√™ esteja ciente disso!

Não há problema nenhum em tomar risco, desde que você não esteja vendado.

Quando o assunto é Brasil, parece que estamos todos vendados

O problema, claro, s√£o nossos vieses.

Digamos que voc√™ recebeu hoje a quantia de R$500.000. Voc√™ ganhou na loteria, sua bisav√≥ te deixou de heran√ßa, ou voc√™ ganhou um contrato para venda de ventiladores mec√Ęnicos a um estado Brasileiro, n√£o importa. A pegadinha √© o seguinte: voc√™ precisa investir esse dinheiro por dois anos, sem tocar, ou perder√° tudo.

Onde você aplica o dinheiro?

Se voc√™ pensou somente coisas como tesouro direto, t√≠tulos de d√≠vida, fundos imobili√°rios, deb√™ntures, terrenos, ou a√ß√Ķes da Bovespa, voc√™ est√° sob o efeito da ilha: para onde olhamos, s√≥ vemos Brasil.

O Brasil √© uma grande ilha. N√£o h√° muitos paralelos poss√≠veis. O pa√≠s √© gigante e fala-se a mesma l√≠ngua de norte a sul. Temos regi√Ķes e estados t√£o diferentes ou mais quanto a Europa. A bolha do Brasil √© gigante, mas ainda sim √© uma bolha.

Durante sua vida, quantas amizades estrangeiras você fez? Se você for bem privilegiado, como eu fui, a resposta será "algumas", principalmente se você cresceu com internet.

Essa perspectiva de mundo mais neutra, que s√≥ √© poss√≠vel adquirir ao mergulhar em conex√Ķes profundas com outras culturas e l√≠nguas, √© muitas vezes inacess√≠vel para n√≥s. Temos pouco incentivo para aprender Ingl√™s ou outro idioma se n√£o para escapar do derretimento econ√īmico que assola o pa√≠s.

Se na pergunta acima você pensou em comprar dólar, ouro, criptomoedas, ou qualquer coisa fora do Brasil independente do perfil de risco, parabéns: você está mais fora do que dentro da ilha.

Pode parecer bobo, mas s√≥ somos ensinados Brasil. Quando voc√™ quer "oportunidades melhores", pensa em mudar de estado ao inv√©s de pa√≠s. Ao diversificar seu portf√≥lio de investimentos, pensa em distribuir entre fundos imobili√°rios, d√≠vida do governo e a√ß√Ķes da bolsa. Esquecemos que tudo isso tem a mesma constante de risco: o Brasil.

Pensar fora dessa caixa √© crucial para vencer esse vi√©s. Buscar entender outras realidades e oportunidades te d√° mais op√ß√Ķes e permite que voc√™ monte estruturas mais arrojadas, resistentes a cisne negros fora do seu controle.

O exemplo dado é com o mercado financeiro, mas isso pode ser estendido para qualquer área da vida: onde você mora, trabalha, guarda, investe, monta família, paga impostos e abre empresas. Quem disse que o Brasil é o lugar para se colocar TODOS esses ovos? Quem disse que todos esses ovos precisam ser postos no mesmo lugar?

Eu n√£o quero ser um peru

O exemplo a seguir é adaptado do Fooled by Randomness, também do Taleb. A anedota original é conhecida, em inglês, como Turkey problem.

Com tudo que vem se desenrolando, não é difícil montar o argumento deste texto. Mesmo assim, também quero fazer o argumento de que as ideias aqui são igualmente válidas em tempos aparentemente "estáveis."

Considere a vida de um peru.

O peru nasce cego aos riscos que o cercam. √Č levado para casa por um humano cujas inten√ß√Ķes parecem boas.

No primeiro dia, o peru é alimentado e solto em um grande quintal, onde pode andar livremente. Pelas semanas seguintes, o peru continua a ser alimentado pelo humano diariamente.

Na verdade, a cada dia que se passa, aumenta a certeza do peru de que também será alimentado amanhã, ao ponto do mesmo criar hábitos com a rotina da casa, podendo prever com exatidão quando o alimento virá.

No dia anterior a véspera de natal, o peru está convencido de que tem a melhor vida do mundo, e tirou a sorte grande. Afinal, há semanas de dados para confirmar essa informação.

Porém, na véspera de natal, um cisne negro acontece, e o peru vai parar na sala de jantar.

Pobre coitado. Como poderia imaginar?

Era inconcebível para o peru que tal evento pudesse ocorrer. Se fosse o caso, o mesmo já teria fugido ao considerar esta possibilidade. O peru recebia apenas a informação oposta: todo dia era alimentado, confirmando sua tese de que seria alimentada no dia seguinte. Nenhuma análise empírica que olhasse para os dias do peru antes do natal poderia concluir que haveria tal risco.

A aplicação das ideias nesse texto são apenas minha tentativa de não ser um peru.

Colocando de outra forma, para quem viu somente o crescimento do Brasil levado pelo boom de commodities de 2000 a 2012, a √ļnica conclus√£o poss√≠vel era a de que o Brasil era o pa√≠s do futuro.

O viés contrário também pode ser verdade: é fácil olhar para o cenário atual e concluir, pela mesma lógica, de que o Brasil está fadado a ficar neste limbo, o que não é necessariamente verdade.

Não estou advogando para que você jamais invista, trabalhe, viva ou faça negócios no Brasil, estou advogando apenas que você tire sua venda, e pense na situação de forma pragmática: tenha para o Brasil o mesmo ceticismo que você (espero eu) teria ao investir (tempo e dinheiro) em qualquer outro lugar.

N√£o seja um peru.

Lembre-se também, da assimetria que existe aqui: o peru ganhou bastante nos dias anteriores ao natal, mas é impossível se recuperar da perda ocorrida na ceia de natal.

N√£o d√° pra saber o que o futuro guarda, ent√£o aja como tal

O exemplo do peru ilustra bem como podemos ser enganados por "previs√Ķes" e √≠ndices. Como j√° dito antes, uma caracter√≠stica de cisne negros s√£o sua imprevisibilidade.

√Č pouco produtivo tentar prever como toda a situa√ß√£o em nosso pa√≠s vai se desenrolar. N√£o d√° para saber se tudo se estabiliza e n√£o se fala mais nisso por 20 anos, ou se vamos ter outro impeachment. Ou se os militares voltam ao poder. Ou se algum estado vai pedir secess√£o. Ou se o partido antes no poder volta com for√ßa. Ou se uma guerra civil estoura. Etcetera.

A mentalidade a ser adquirida, e a ideia central neste texto, é que você estruture sua vida de tal forma que pouco importa o que aconteça, qualquer dano que você tomar não será catastrófico.

Uma forma de fazer isso é tratar tudo que você faz no Brasil como especulação. Dessa forma você não é pego de surpresa quando algo estoura.

Procure maneiras de diversificar o risco em sua vida. Será que sua empresa precisa mesmo ser incorporada no Brasil? Ou sua conta bancária? Você é confiante que a economia nacional merece guardar suas reservas financeiras ou será que há outras oportunidades além da ilha brasileira?

Lembre-se que, ao colocar todas as suas expectativas no mesmo lugar, voc√™ pode estar apostando inclusive com a sua pr√≥pria vida (exemplos claros s√£o os √≠ndices de viol√™ncia do Brasil ou at√© mesmo a forma como a pandemia do coronav√≠rus est√° se desenrolando em nosso pa√≠s), embora os exemplos e analogias centrais aqui tenham sido econ√īmicos.

Novamente, n√£o seja um peru.

Recomenda√ß√Ķes de leitura

H√° centenas de formas de se tornar menos vulner√°vel ao risco Brasil (e de outros lugares tamb√©m). Voc√™ ainda pode, se n√£o quiser ou n√£o puder sair fisicamente do Brasil, organizar sua vida de forma a ser menos afetado com decis√Ķes de pol√≠ticos e mercados.

Deixo os seguintes livros, artigos e v√≠deos como recomenda√ß√Ķes de leitura:

Como sempre, coment√°rios, cr√≠ticas e sugest√Ķes no Twitter.

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Notas

(¬Ļ) Para boa parte de n√≥s. Este √© outro detalhe: cisnes negros dependem do referencial. Como o Taleb coloca, o atentado ao WTC em 2001 n√£o foi um cisne negro para os terroristas que o executaram.

(²) Há cisne negros positivos e negativos, dependendo de qual lado você está. Para quem aposta contra o Real, o derretimento da moeda é positivo, por exemplo.